terça-feira, 29 de maio de 2012

O importante é competir



José Manuel Ortega, CEO do grupo O. Fournier, considera o brasileiro “Louco por vinho”. Tão louco que continua comprando apesar da quantidade de impostos e taxas que o governo impõe à bebida. Sábias palavras, que no fundo são um elogio à atitude do consumidor brasileiro, que não se deixa abater pela ganância governamental, que, justificando ainda mais a má fama, pretende taxar o produto importado com a tal da "salvaguarda".
Mas falemos do vinhos da O. Fournier. Trata-se de um grupo que entrou no mercado para conquistar espaço na linha dos vinhos premium. Em 12 anos, já conquistou incrível reconhecimento entre os especialistas. Provei oito exemplares deles, produzidos na Espanha, no Chile e na Argentina, em degustação promovida pela Vinci. Posso dizer que a O. Fournier é realmente uma produtora competitiva. Consegue o melhor de cada uva, sendo a Tempranillo o carro-chefe, no caso dos tintos,e sauvignon blanc, no branco.





Começando pelos brancos, o Bcrux, safra 2011, argentino, é bem frutado, mas ganha um toque de sofisticação pelo forte acento mineral no paladar. A impressão desse mix é como que as frutas “petrificassem”. Bela combinação. Mais incrível ainda é quando passamos ao argentino Centauri, safra 2009. A proximidade do mar deu a ele, segundo o crítico Jancis Robinson, “notas marinhas”. O que isso significa? Bem, depois de provar o argentino, fica claro que o chileno é, acreditem, mais “salgadinho” na boca. Preços: Bcrux (U$ 39,90); Centauri (U$ 36,90).





Gostei do Urban Oak Ribera (2007), espanhol, 100% tempranillo, e do “malbecão” argentino Urban Uco (2010). Mas o Centauri Blend (combinação de cabernet frac e sauvignon, merlot e carignan) e o Spiga (2005) impressionam muito mais. O primeiro faz o contraste das vuas potentes com as mais suaves. 








Já o Spiga, só com tempranillo é “matador” no aroma e continua na mesma onda no paladar. Experiência maravilhosa. Meio “untuoso”, seu gosto se prolonga na boca. Ganhou 92+ de Robert Parker. Preços: Spiga (U$ 87,90); Centauri Blend (U$ 53,90).










Vamos aos top da marca. O Alfa Spiga (2004), espanhol, é o tempranillo em sua excelência. Encorpado, marcante, é um dos campeões de Ribera Del Duero, região onde é produzido. Mas o Alfa Crux Blend (2004), argentino que mistura temparnillo, malbec e merlot, para mim, foi o campeão da noite. O blend dessas castas deixa o vinho ao mesmo tempo potente e suave, e isso é tão marcante que você identifica o “choque” na hora, e acaba seduzido por ele.  Preços: Alfa Spiga (U$ 135,50); Alfa Crux (U$ 89,90).

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Negro no Poder



Conheça mais sobre a força da black tattoo, ou tatuagem com tinta negra, estilo que predomina entre os que pintam seu corpo por alguma razão muito especial

Por EDGARD REYMANN

Ninguém faz uma black tattoo sem um motivo forte. Ainda que eles possam variar, quem quer fazer uma tattoo só com tinta preta geralmente quer que ela represente algo marcante. Pode ser uma fase da vida, o nascimento de um filho, o fim de um sofrimento, um rito de passagem ou até um desejo profundo de se ligar numa tradição ancestral, mesmo que seja algo tão distante, para nós brasileiros, como a cultura maori ou tailandesa. Dificilmente ela é apenas “recreativa”, como aquela borboletinha na virilha, as flores espalhadas pelo corpo ou a fadinha azulzinha nas costas da garota. Claro, nada contra quem escolhe fazer tatuagem assim, mas quando uma pessoa quer fazer uma modificação corporal de impacto, muitas vezes recorre à pintura do corpo com tina preta.
A black tattoo tem um quê artístico e místico, que nos liga a mistérios quase insondáveis como mandalas orientais e símbolos alquímicos. Mas, no ocidente, ela tem força de street art, e não é raro ver jovens de periferia imprimindo em sua “canvas” corporal, representações da realidade, como rostos de ídolos ou imagens do estilo horror, figuras fantasmagóricas, armas etc. Tudo isso está muito bem explicado em duas obras que acabam de chegar ao Brasil, Black Tattoo Art e Black and Grey Tattoo, ambos de autoria da advogada americana Marisa Kakoulas. São duas obras ricamente ilustradas, que trazem a arte de grandes ilustradores americanos, europeus e orientais, sendo que esta última vem em nada menos do que três volumes, totalizando mais de mil páginas sobre a arte da tatuagem negra.
Alguém falou em advogada? Sim, Marisa Kakoulas é uma advogada novaiorquina e por um bom tempo trabalhou no mudo corporativo, onde tinha que dar uma “mocosada” nas tattoos – mas lá é fácil, faz frio boa parte do tempo. Ainda adolescente, Marisa era mera admiradora da tatuagem, ficava chapada ao ver mulheres tatuadas – achava elas muito sexy, fodonas mesmo. Pouco tempo depois, visitou um estúdio, onde seu namorado ia fazer uma tatuagem no braço. Mais do que o apelo de ação rebelde “de gueto” underground, ela viu ali verdadeiras obras de arte feitas em pele. Depois de formada, ela se envolveu totalmente com esse universo e se tornou uma das principais responsáveis pela legalização e formalização da profissão nos Estados Unidos, onde até 1997 era uma prática ilegal. Também jornalista, ela passou a escrever para várias publicações e desde 2008 passou a publicar livros sobre tatuagem pela editora alemã Reuss. Além dos livros que falamos aqui, Marisa já lançou obras sobre a tatuagem japonesa, a chinesa, a tradição kalinga, a colorida e, mais recentemente, a tatuagem latina, em especial a mexicana e das tribos indígenas das américas. 
Para Marisa, no entanto, a black tattoo tem um apelo especial. Em seus braços e suas costas estão tatuadas verdadeiras  pinturas de arte oriental, que ela foi meio que montando em fases, já que o detalhamento é tão grande que demora anos para chegar ao resultado. Claro que ela contou  em boa parte delas com a mãozinha genial do então marido Daniel DiMattia, um dos mais conceituados tatuadores europeus, que tem um concorrido estúdio na Bélgica.
Black Tattoo Art fala das origens da tatuagem negra, remonta aos rituais tribais do extremo Oriente, mas dedica mais três quatro capítulos aos outros estilos, como o budista, o pontilhista, em que as imagens s formam a partir de pontinhos pretos na pele, e uma que ela chama de “art brut”, ou arte bruta, ou crua, algo que varia entre arte naïf e o insano, e que tem em Yann Black um de seus grandes artistas. Já Black and Grey Tattoo é um mamute dividido em três partes que engloba todas as técnicas dessa arte milenar, cujos registros maisantigos datam de 1500 anos antes de Cristo. O primeiro volume trata do tradicional, o segundo do estilo dark/horror e o terceiro é sobre fotorrealismo. A diferença entre essa bíblia e o Black Tattoo Art é que ele abrange as tatuagens sombreadas e cinzentas, em que a tinta é diluída em água. O resultado dessas tatuagens são verdadeiros ícones da body art.
No Brasil, além das fadinhas, florzinhas e borboletinhas e das frases tipo “made in Brasil” ou “ninguém pode me julgar” que abundam sobre corpos bronzeados em 90 por cento das nossas praias, há também exemplares de arte corporal de todas as vertentes abordadas no livro de Kakoulas, muito embora ainda não haja uma verdadeira tradição tupiniquim nessa arte. Porém, o mercado é forte e crescente. Há muito que a tatuagem deixou os “guetos” e o preconceito, que só se explicapelo fato de ela ter vindo para o Brasil pelo dinamarquês Knud Harld Likke Gregersen, que estabaleceu sua Lucky Tattoo, nos anos 1960, na zona portuária de Santos, também conhecida por ser uma zona de meretrício. A partir dos anos 1990, ela se popularizou muito e hoje desconhece questões de raça ou classe social.
Maxim conversou com o tatuador Xamã Douglas, que começou a tatuar em 1998. Dono de um estúdio em São Paulo, ele já “passou” por mais de mil peles. Uma delas é a de Bruna Nishimori, de 20 anos, que trabalha como cabeleireira numa grande franquia do gênero na cidade. Seus braços e seu colo são tatuados exclusivamente em preto e cinza. “Eu prefiro black tatto, acho mais bonito e curto o sombreado”, diz a moça de pele muito branca, cujo braço esquerdo ostenta uma coruja ao alto, de onde saem ramificações de plantas, ampulheta, rosa, chaves e coração. No colo, ela pede proteção contra o mal. Ela explica a tatuagem: “Escolhi a coruja porque ela tem olhos grandes. Eu, apesar de vir de uma família oriental, também tenho olhos grandes. E a coruja é uma ave inteligente. Já a ampulheta tem a ver com paciência. O coração tem uma chave com um diamante. E as borboletas foram para complementar mesmo”. Amém, Bruna.
Para Bruna, a tatuagem tem que falar um pouco de si, “não gosto de nada óbvio”. Assim como ela Cíntia Piubelli fez uma tatuagens que dizem algo dela própria. Aos 21 anos, ela fez rosas negras no braço. “Foi um momento intenso na minha vida e eu quis as rosas como um símbolo, um escudo para o amor. E, engraçado, de certa forma eu consegui”, diz a hostess de uma churrascaria portenha no bairro paulistano de Higienópolis. A segunda veio há pouco tempo, quando ela completou 28 anos: um curioso colar em seu colo “segurado” delicadamente por andorinhas. “Para mim, as andorinhas representam a lealdade e a libertação do passado, das mágoas, dos sofrimentos e dos ressentimentos”, acredita. Para Cíntia, que também possui uma tatuagem colorida, a black tattoo é mais elegante.
Já o tatuador Xamã Douglas diz não preferir uma ou outra, o que revela seu lado mais político de tatuador. Mas reconhece que a black tattoo, especialmente a tribal, mais difundida no Brasil, tenha muito respeito. Apesar disso, seu trabalho abrange vários estilos, em especial o latino, com muita inspiração urbana, com muito sombreado e uma das tendências atuais. No entanto, Douglas procura criar as imagens segundo a conversa que tem com a cliente. “Não gosto de pegar algo pronto, posso até fazer, mas minha onda mesmo é criar junto com quem vai ser tatuado”, garante, o que explica a originalidade da tatuagem de Bruna Nishimori. Ainda sem uma regulamentação no Brasil, o ofício de tatuagem é ao menos obrigado a seguir regras determinadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), desde 2008. Isso tem garantido um padrão mínimo tanto para as tinatas como de acessórios. Agora, o que falta mesmo é o Brasil criar sua tradição. Vedadeiro “melting pot” de culturas, fica difícil por enquanto identificar alguma coisa como genuinamente brasileira, a não ser a arte indígena, uma das mais antigas entre os povos das Américas. A chegada de livros como os que mencionamos aqui já serve para trazer mais luz aos estilos e tendência de uma arte que só no Brasil já foi adotada por milhões de pessoas. Nesse segmento, tudo o que vier de informação certamente será lucro.

Serviço: Os livros Black Tattoo Art e Black & Grey Tattoo são editados pela Edition Reuss, e importados para o Brasil pela TCM Supply Corportaion. Site: www.adinternacional.com.br Tel.: (11)  3596 6800.

sábado, 12 de maio de 2012

Venham experimentar essas delícias!

Só para lembrar quem não viu: fiz uma matéria sobre charutos para a Playboy que acaba de ir às bancas. São sete páginas com um pouco de sua história, das lendas em torno dele e algumas dicas de onde se fumar, harmonizaçãoes e um guia de consumo para você aproveitar melhor do puro tabaco, do Brasil a Cuba.
Buen provecho!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

É rum, hein?

Ninguém gosta de rum no Brasil. No máximo, só aceitam na caipirinha, e, isso, só se não tiver mais vodca, saquê ou nitroglicerina. Mas não se deve tirar toda razão do consumidor. De fato, nós conhecemos pouquíssimo essa bebida originária da América Central e Caribe, que está a anos-luz da cachaça no mercado internacional. Certamente, essa luta tende a ficar menos desigual com a chegada da cachaça - e não do "Brazilian ron", como impunham - com seu nome real e verdadeiro. Ok, ambas são feitas de cana, mas o resultado é bastante diferente. Existem cachaças intragáveis e espetaculares. É o mesmo caso do rum. E o que conhecemos até hoje disponívenl no Brasil é... mediano, para ser bonzinho.

Tudo muda quando você conhece um ron de melhor qualidade, como por exemplo, o Havana Club, bom para se tomar puro ou com gelo. Mas você cairá de costas e "mudará seus paradigmas" etílicos quando experimentar o ron Zacapa. Feito na Guatemala, ele é feito do "melzinho" da primeira prensa da cana - eles chamam assim mesmo: virgin sugar cane honey. Um dos segredos está no fato de ele ser envelhecido com um método parecido com o que se produz o sherry. Outro segredo está no seu armazenamento a mais de 2 mil metros de altitude. O resultado é um rum finíssimo, e com certeza não deve ser misturado com outras coisas. No máximo um gelinho. O aroma e o gosto de mel e notas florais são facilmente perceptíveis pelos sentidos. Para se ter uma ideia, ele foi eleito o melhor rum do mundo entre 1998 e 2001.

Experimentei o Zacapa 23 - o número corresponde aos anos de envelhecimento da bebida - na Tabacaria Los Habanos, em São Paulo, fumando um dominicano Camacho Corejo, de alta densidade, e que casou muito bem com a bebida. A harmonização foi dirigida pelo sommelier de charutos, o chileno Philip Ili Barake, que trabalha para a Diageo, empresa que está trazendo o rum para o Brasil. Também estiveram presentes, entre outros amigos, o professor Cesar Adames e Wilson Dantas, da Charutos Damatta. Nessa tarde inesquecível, também bebemos o espetacular XO Zacapa. Digamos que seja o top de linham num segmento premium em que o Zacapa 23 já é "the best". Imagine. Segundo Murilo Marques, brand ambassador da Diageo, é preciso ainda inventar uma categoria para ele. O XO acompanhou melhor com o segundo e terceiro terços do charuto, opinião unânime entre os que optaram por um charuto mais forte.

O Zacapa chega para mudar a opinião de quem sempre torceu o nariz para o rum. Pode custar mais, sem dúvida (algo em torno de 170  reais a garrafa do 23), mas ele está num patamar que os deuses costumam visitar quando querem se embriagar sem nenhuma moderação.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Surpresas da Expovinis

Visitei ontem a Expovinis, em seu segundo dia em São Paulo, e fiquei bastante surpreso com a quantidade de boas e pequenas vinícolas que ainda aguardam interessados em trazer suas iguarias ao Brasil. Como sempre prefiro começar por portugueses e italianos, acabei começando para variar com uma vinícola israelense, a Yarden. Seu chardonnay é dos mais intrigantes. De início nem se parece com o chardonnay chileno que estamos acostumados a beber por aqui. Denso, ácido acima da média e... muito gostoso. Um chardonnay muito refrescante e até com certa mineralidade, coisa que só podia rolar num solo e num clima como o do Oriente Médio.

Depois, uma passadinha rápida para tomar uma aguinha no stand da Pedras Salgadas, produto já conhecido por aqui, mas muito pouco REconhecido. Água espetacular, gaseificada na fonte, com um toque salgado, justificando a tradicional objetividade portuguesa.



Mas alguns passos e "caio" na mesinha da Torre Fornello. Sim, mesinha, onde a simpática Elena Ercole comandava uma degustação dos vinhos da pouco conhecida região Emilia-Romagna. Fiquei só no rótulo Torre Fornello, com um delicioso Pratobianco, branco com base de uva Malvasia, e o sparkling Bonarda. Se você não gosta dos fajutinhos lambruscos que estão nos supermercados, vai mudar totalmente de ideia quando experimentar Bonarda Sparkling Doc.









Vamos em frente e experimento um vinho da Cantina Giogantinu, da igualmente pouco conhecida Sardenha. Dio mio!!! O Karenzia, feito da Vermentino era tão floral misturado a notas de mel fortes, que acho que tdaria um belíssimo perfume feminino. O "filho" do Karenzia, segundo o produtor, é o vinho ao lado, o Lughente, um colheita tardia que, de tão sabosoro, nem precisa de sobremesa para acompanhar. No máximo, assim, uma varanda com vista para a natureza. Na Sardenha. Fácil.






Passando pelos stands dos vinhos da região do Friuli, norte da Itália, na divisa com os Alpes austríacos, respondi a um rápido quiz feito pela sommelier da vinícola, a brasileira Ada Regina Freire, e ganhei uma garrafa de um excelente, o I Feudi di Romans, só de uva friulano. Branco, é um vinho com boa acidez no início, mas muito suave de final. Ou seja, você toma um gole, sente a força dele, mas depois se toca que seu paladar ficou suave e adocicado. Quase magia. Outra boa pedida da região é o Tenuta di Luisa.





Mas, para não renegar as origens, tinha que dar uma passadinha no stand de um alemão, pelo menos. Estou na  Zimmermann-Graeff & Müller, mas em vez de atacar os brancos, fico curioso com o Chocolate Ruby, que veio só passear no Brasil. É um fortificado com infusão de chocolate. A vinícola detém o know-how do vinho, mas com o nome Chocolate Ruby, só pode ser comercializado na Inglaterra, pois se trata de uma encomenda da rede Marks & Spencer. Eu, que adoro um charuto e só consigo admitir um fortificado - e jamais um vinho - para acompanhá-lo, achei a ivnenção alemã um achado. Como todos os que descrevi acima, seria muito bem-vindo ao mercado brasileiro.
 


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Bem me quer, Malbec quer

E o malbec, ora, tem seu dia internacional! Nada melhor que degustá-los em toda a sua excelência nos deliciosos produtos da Argentina, que é onde a uva se deu melhor. O Malbec World Day é em 17 de abril, é celebrado em mais de 30 cidades do mundo, mas, aqui, as celebrações começaram ontem, dia 10, com uma palestra magistralmente conduzida pelo papa brasileiro dos vinhos, Marcelo Copello. O local foi o novo endereço da pizza em São Paulo, a 68 - La Pizzeria, aberta há cerca de um mês, na alameda Tietê, 54, nos Jardins.

Marcelo estabeleceu uma interessante comparação entre o malbec e o tango. Ligou a história da música que melhor define o espírito argentino com a uva que coloca o país num lugar de honra entre todos os produtores de vinho do planeta. Segundo Copello, o malbec se deu muito bem na terra dos hermanos, especialmente em Mendoza, por ser ali um local com pouquíssima chuva, ter um clima mais extremo - no verão faz calor, no inverno, muito frio -, e oferecer condições de plantio como em nenhum outro ligar do mundo: é possível cultivar vinhas em grandes altitudes, coisa de 2 a 3 mil metros acima do nível do mar. Assim, só a Argentina é capaz de produzir vinhos tão diferenciados com essa uva.

Começamos com o Zeta Zuccaro 2007 (custo médio de R$ 240,00 a garrafa), que é cultivado a mais de dois mil metros de altitude. Elegante e por demais refrescante, em se considerando um malbec, sempre denso, tem tanino redondo e forte.

Partimos para o Trapiche 2004 (R$ 490,00), bem mineral e frutas maduras, com tanino doce.

O Primus Malbec 2007 (R$ 216,00) é bonzão, também impressionou, mas o Magdalena Toso 2005 (cerca de R$ 500,00) arrancou suspiros dos presentes enquanto as ótimas pizzas eram servidas. O Magdalena inclusive suportou com bravura a pimenta da pizza de calabresa servida pela casa. É um vinho com pegada forte, muita fruta e madeira no paladar. Foi o vinho preferido de uma turma composta por jornalistas, produtores e até membros do corpo consular argentino.

O Cadus Malbec Estiba 39, safra 2000, foi a "cereja do bolo". É um vinho já maduro, com doze anos de garrafa e suavizado pela ausência do álcool no bouquet, e de uma elegância incomparável. Infelizmente, não há mais desta safra à venda. Ou seja, quem tem dessa safra pode incluí-la nos próximos momentos especiais, pois está perfeito para ser degustado.

Para finalizar, um Trapiche colheita tardia acompanhando a sobremesa. Concluindo: ainda que por conta de sua potência tenha se consagrado, mas também relegado à linha de vinhos fortes e intensos (como o tango), há muito o que descobrir dessa casta que tão bem se ambientou na Argentina. Afinal, quem não gosta de tango bom sujeito não é.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quinta dos Infernos Celestial



No mundo do vinho, muito do que se bebe tem a "cara" do produtor. Isso é mais válido ainda quando se trata de vinícolas particulares, cujas propriedades, por vezes modestas no tamanho, não têm capacidade de produzir vinhos em massa. No entanto, por isso mes, elas acabam tendo controle e supervisão muito personalizado, que se reflete em cada safra.

Este é o caso da Quinta da Pellada, vinícola do Dão (Portugal), que produz verdadeiras joias, cuja produção passa, desde à plantação ao blend de castas, pelas mãos do proprietário Álvaro Castro. Em visita ao Brasil, no mês de março, Álvaro veio acompanhado de sua filha Teresa, arquiteta e designer que está passando uns tempos em São Paulo, que aos poucos também vai se envolvendo mais profundamente com a vinícola. Eles nos mostraram o melhor de sua produção em jantar à altura no Tasca da Esquina, ótimo endereço da culinária portuguesa em São Paulo.

A recepção se deu com o Quinta de Saes Reserva Encruzado 2010, ainda nas mesas dispostas na calçada. Dia calorento, amenizado com um branco refrescante, cuja mineralidade se casava bem com os tons cítricos brotando no paladar.

Já à mesa, o excepcional Quinta da Pellada Primus 2010, cuja safra anterior mereceu 94 pontos de Robert Parker. Acompanhando, sopa fria de tomate e morango, camarão e coentro; seguida do polvo de forno, grellos (!) salteados e batata bolinha confit. A chegada dos tintos Quinta de Saes 2008, Quinta da Pellada 2008, Pape 2005, Doda 2008 e finalmente o robusto Quinta da Pellada Touriga Nacional 2004 provocou veradeira explosão no paladar, muito bem acompanhados de novilho na panela, farofa de linguiça e aspargos.







Nossa preferência ficou entre o Quinta do Saes pela leveza - embora seja mais um vinho para consumo imediato e não de investimento em longo prazo - e o sedoso Pape (meio a meio Touriga e Baga), claro que sem demérito para os outros. Talvez o Pellada Touriga 2004, por sua complexidade e robustez, tenha sido "prejudicado" pelo calor do final de verão paulistano.









Para finalizar, fora do script, Álvaro nos ofereceu um fortificado Niepoort 20 anos para arrematar a sobremesa (pudim de azeite com creme de cenoura e laranja, com crocante de macadamia). Chocante.

Se o céu for assim, ele é infernal de bom. Ora, pois.