Conheça mais sobre a força da black tattoo, ou tatuagem com
tinta negra, estilo que predomina entre os que pintam seu corpo por alguma razão
muito especial

Por EDGARD REYMANN

Ninguém faz uma black tattoo sem um motivo forte. Ainda que
eles possam variar, quem quer fazer uma tattoo só com tinta preta geralmente
quer que ela represente algo marcante. Pode ser uma fase da vida, o nascimento
de um filho, o fim de um sofrimento, um rito de passagem ou até um desejo
profundo de se ligar numa tradição ancestral, mesmo que seja algo tão distante,
para nós brasileiros, como a cultura maori ou tailandesa. Dificilmente ela é
apenas “recreativa”, como aquela borboletinha na virilha, as flores espalhadas
pelo corpo ou a fadinha azulzinha nas costas da garota. Claro, nada contra quem
escolhe fazer tatuagem assim, mas quando uma pessoa quer fazer uma modificação
corporal de impacto, muitas vezes recorre à pintura do corpo com tina preta.
A black tattoo tem um quê artístico e místico, que nos liga
a mistérios quase insondáveis como mandalas orientais e símbolos alquímicos.
Mas, no ocidente, ela tem força de street art, e não é raro ver jovens de
periferia imprimindo em sua “canvas” corporal, representações da realidade,
como rostos de ídolos ou imagens do estilo horror, figuras fantasmagóricas,
armas etc. Tudo isso está muito bem explicado em duas obras que acabam de
chegar ao Brasil, Black Tattoo Art e Black and Grey Tattoo, ambos de autoria da
advogada americana Marisa Kakoulas. São duas obras ricamente ilustradas, que
trazem a arte de grandes ilustradores americanos, europeus e orientais, sendo
que esta última vem em nada menos do que três volumes, totalizando mais de mil
páginas sobre a arte da tatuagem negra.
Alguém falou em advogada? Sim, Marisa Kakoulas é uma advogada
novaiorquina e por um bom tempo trabalhou no mudo corporativo, onde tinha que
dar uma “mocosada” nas tattoos – mas lá é fácil, faz frio boa parte do tempo.
Ainda adolescente, Marisa era mera admiradora da tatuagem, ficava chapada ao
ver mulheres tatuadas – achava elas muito sexy, fodonas mesmo. Pouco tempo depois,
visitou um estúdio, onde seu namorado ia fazer uma tatuagem no braço. Mais do
que o apelo de ação rebelde “de gueto” underground, ela viu ali verdadeiras
obras de arte feitas em pele. Depois de formada, ela se envolveu totalmente com
esse universo e se tornou uma das principais responsáveis pela legalização e
formalização da profissão nos Estados Unidos, onde até 1997 era uma prática
ilegal. Também jornalista, ela passou a escrever para várias publicações e
desde 2008 passou a publicar livros sobre tatuagem pela editora alemã Reuss.
Além dos livros que falamos aqui, Marisa já lançou obras sobre a tatuagem
japonesa, a chinesa, a tradição kalinga, a colorida e, mais recentemente, a
tatuagem latina, em especial a mexicana e das tribos indígenas das
américas.
Para Marisa, no entanto, a black tattoo tem um apelo
especial. Em seus braços e suas costas estão tatuadas verdadeiras pinturas de arte oriental, que ela foi meio
que montando em fases, já que o detalhamento é tão grande que demora anos para
chegar ao resultado. Claro que ela contou
em boa parte delas com a mãozinha genial do então marido Daniel
DiMattia, um dos mais conceituados tatuadores europeus, que tem um concorrido
estúdio na Bélgica.
Black Tattoo Art fala das origens da tatuagem negra, remonta
aos rituais tribais do extremo Oriente, mas dedica mais três quatro capítulos
aos outros estilos, como o budista, o pontilhista, em que as imagens s formam a
partir de pontinhos pretos na pele, e uma que ela chama de “art brut”, ou arte
bruta, ou crua, algo que varia entre arte naïf e o insano, e que tem em Yann
Black um de seus grandes artistas. Já Black and Grey Tattoo é um mamute
dividido em três partes que engloba todas as técnicas dessa arte milenar, cujos
registros maisantigos datam de 1500 anos antes de Cristo. O primeiro volume
trata do tradicional, o segundo do estilo dark/horror e o terceiro é sobre
fotorrealismo. A diferença entre essa bíblia e o Black Tattoo Art é que ele
abrange as tatuagens sombreadas e cinzentas, em que a tinta é diluída em água.
O resultado dessas tatuagens são verdadeiros ícones da body art.
No Brasil, além das fadinhas, florzinhas e borboletinhas e
das frases tipo “made in Brasil” ou “ninguém pode me julgar” que abundam sobre
corpos bronzeados em 90 por cento das nossas praias, há também exemplares de
arte corporal de todas as vertentes abordadas no livro de Kakoulas, muito
embora ainda não haja uma verdadeira tradição tupiniquim nessa arte. Porém, o
mercado é forte e crescente. Há muito que a tatuagem deixou os “guetos” e o
preconceito, que só se explicapelo fato de ela ter vindo para o Brasil pelo
dinamarquês Knud Harld Likke Gregersen, que estabaleceu sua Lucky Tattoo, nos
anos 1960, na zona portuária de Santos, também conhecida por ser uma zona de
meretrício. A partir dos anos 1990, ela se popularizou muito e hoje desconhece
questões de raça ou classe social.

Maxim conversou com o tatuador Xamã Douglas, que começou a
tatuar em 1998. Dono de um estúdio em São Paulo, ele já “passou” por mais de
mil peles. Uma delas é a de Bruna Nishimori, de 20 anos, que trabalha como
cabeleireira numa grande franquia do gênero na cidade. Seus braços e seu colo
são tatuados exclusivamente em preto e cinza. “Eu prefiro black tatto, acho
mais bonito e curto o sombreado”, diz a moça de pele muito branca, cujo braço
esquerdo ostenta uma coruja ao alto, de onde saem ramificações de plantas,
ampulheta, rosa, chaves e coração. No colo, ela pede proteção contra o mal. Ela
explica a tatuagem: “Escolhi a coruja porque ela tem olhos grandes. Eu, apesar
de vir de uma família oriental, também tenho olhos grandes. E a coruja é uma
ave inteligente. Já a ampulheta tem a ver com paciência. O coração tem uma
chave com um diamante. E as borboletas foram para complementar mesmo”. Amém,
Bruna.

Para Bruna, a tatuagem tem que falar um pouco de si, “não
gosto de nada óbvio”. Assim como ela Cíntia Piubelli fez uma tatuagens que
dizem algo dela própria. Aos 21 anos, ela fez rosas negras no braço. “Foi um
momento intenso na minha vida e eu quis as rosas como um símbolo, um escudo
para o amor. E, engraçado, de certa forma eu consegui”, diz a hostess de uma churrascaria
portenha no bairro paulistano de Higienópolis. A segunda veio há pouco tempo,
quando ela completou 28 anos: um curioso colar em seu colo “segurado”
delicadamente por andorinhas. “Para mim, as andorinhas representam a lealdade e
a libertação do passado, das mágoas, dos sofrimentos e dos ressentimentos”,
acredita. Para Cíntia, que também possui uma tatuagem colorida, a black tattoo
é mais elegante.
Já o tatuador Xamã Douglas diz não preferir uma ou outra, o
que revela seu lado mais político de tatuador. Mas reconhece que a black
tattoo, especialmente a tribal, mais difundida no Brasil, tenha muito respeito.
Apesar disso, seu trabalho abrange vários estilos, em especial o latino, com
muita inspiração urbana, com muito sombreado e uma das tendências atuais. No
entanto, Douglas procura criar as imagens segundo a conversa que tem com a
cliente. “Não gosto de pegar algo pronto, posso até fazer, mas minha onda mesmo
é criar junto com quem vai ser tatuado”, garante, o que explica a originalidade
da tatuagem de Bruna Nishimori. Ainda sem uma regulamentação no Brasil, o
ofício de tatuagem é ao menos obrigado a seguir regras determinadas pela Anvisa
(Agência Nacional de Vigilância Sanitária), desde 2008. Isso tem garantido um
padrão mínimo tanto para as tinatas como de acessórios. Agora, o que falta
mesmo é o Brasil criar sua tradição. Vedadeiro “melting pot” de culturas, fica
difícil por enquanto identificar alguma coisa como genuinamente brasileira, a
não ser a arte indígena, uma das mais antigas entre os povos das Américas. A
chegada de livros como os que mencionamos aqui já serve para trazer mais luz
aos estilos e tendência de uma arte que só no Brasil já foi adotada por milhões
de pessoas. Nesse segmento, tudo o que vier de informação certamente será
lucro.
Serviço: Os livros Black Tattoo Art e Black & Grey Tattoo são editados pela Edition Reuss, e importados para o Brasil pela TCM Supply Corportaion. Site: www.adinternacional.com.br Tel.: (11) 3596 6800.